segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ESPAÇO ABERTO PARA A OPINIÃO DO CAPITÃO REIS, DIGNO IRMÃO.


PROIBIÇÃO DA "PALMADINHA"

Muito se tem discutido nos últimos dias sobre o Projeto de Lei apresentado pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao Congresso Nacional, que prevê a alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei no. 8.069/90, no sentido de punir os pais que praticarem violência, mesmo que moderada, contra os filhos, como a
punição da chamada “palmadinha”.

Temos visto pela imprensa opiniões extremamente abalizadas, tanto a favor como contra o projeto de lei. São pais, professores, pedagogos, psicólogos, autoridades públicas, advogados, todos empenhados em discutir a questão.

Não sou a favor da violência contra a criança e o adolescente, nem contra qualquer ser vivo.

Sou contra a criação de uma lei que possa colocar os filhos contra os pais. Sou contra a criação de uma lei que torna milhões de pais infratores da lei, da noite para o dia. Sou contra o Brasil seguir diretrizes da Organização das Nações Unidas, sem se atentar para o nosso contexto histórico e cultural, assim como fez quando proibiu o trabalho de adolescentes menores de dezesseis anos, cabendo ressaltar que se trata do mesmo Organismo Internacional que tem buscado incansavelmente a liberação do aborto em todo o mundo, de forma indiscriminada.

Contudo, sou a favor do Congresso Nacional criar uma lei que obrigue as escolas de todo o país a desenvolver, todos os anos, discussões sobre a prevenção de drogas. Que seja incluído no currículo escolar, desde o ensino fundamental até o ensino superior, informações sobre o mesmo assunto, bem como sobre a não violência, pois é certo que o aumento do consumo de droga leva ao aumento da violência. Vamos educar as crianças hoje, para não punir os homens amanhã.

Sou a favor do Congresso Nacional aprovar uma lei que proíba as crianças de brincarem com jogos eletrônicos em que haja assassinatos ou outras formas de violência, como jogos de guerra, sangrentas lutas de artes marciais etc. Nossas crianças, desde a mais tenra idade estão sendo submetidas a cenas de violência, seja por meio dos jogos eletrônicos, filmes, desenhos e internet, como se fosse algo normal. E ainda nos perguntamos por que será que tem ocorrido tantos crimes violentos, como se a vida do ser humano não valesse nada.

Sou a favor ainda da adoção de medidas concretas para frear o consumo de bebida alcoólica por crianças e adolescentes, considerada uma droga “meio” para se chegar ao consumo da maconha, da cocaína e do crack. Nesse sentido, sou a favor do Município criar uma lei que institua multas pesadas para os dirigentes de escolas que organizam bailes de formaturas e fecham os olhos para o consumo de álcool por menores. Poderiam ser incluídos nesta lei, também os organizadores de show´s, festas “Open Bar” e outros entretenimentos.

Sou a favor do Poder Público criar centros de tratamentos e internação de dependentes químicos, sem prejuízo do tratamento ambulatorial já existente. A propósito, desde 1976 há tal previsão na legislação brasileira, na extinta Lei Federal no. 6368. Hoje, quem tem um filho dependente químico não sabe o que fazer, pois dificilmente conseguirá uma internação do mesmo para tratamento. O que existe são iniciativas bem intencionadas, mas pontuais e insuficientes, em geral de igrejas e associações particulares.

A sociedade está fragilizada, porque a família está fragilizada. Muitos pais estão desesperados por não conseguirem impor limites aos seus filhos. A realidade de muitos lares é a aquela em que os pais precisam trabalhar o dia todo para sustentar a família. Por outro lado, os filhos adolescentes que também poderiam trabalhar ao menos meio período, não podem porque a Lei brasileira não permite, e com isso, acabam ficando ociosos tempo demais, às vezes na presença de más companhias; no momento em que o adolescente atinge a idade de dezesseis anos, quando já poderia ingressar no mercado de trabalho, muitas vezes já não quer mais trabalhar, pois já ingressou no mundo das drogas. O traficante o acolheu antes do que a própria sociedade.

Entendo que o projeto de lei proposto é um ideal a ser perseguido e alcançado pelo Estado e por toda a sociedade, mas no atual contexto brasileiro, precisaríamos antes, enfrentar frontalmente as questões acima destacadas. O Estado quer proibir a “palmadinha”, mas não se importa se estão sendo produzidos jogos eletrônicos voltados para as crianças e adolescentes, onde eles assassinarão centenas de seres humanos “virtuais” a cada vez que jogarem. Se esse Projeto de Lei for aprovado será mais um duro golpe na instituição chamada família.

Por fim, agradeço aos meus pais pelas palmadas que recebi quando criança, pois contribuíram para que me tornasse uma pessoa de bem.

Araçatuba, 17 de julho de 2010.

Autor: Marcelo Pereira dos Reis, Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo (e-mail: smpreis@ig.com.br).


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Nota: Não coaduno com a totalidade das idéias supra expostas, mas apóio e enalteço os nobres propósitos da iniciativa do autor e de seus trabalhos sócio-humanitários.
A acrescentar, por ora, apenas que... é provável que das deontológicas mentes de que promana esta "aberratio legis" advirá, provavelmente, a próxima vedação legal: palmadas durante o sexo.
E a propósito dos efeitos desta excrescência legislativa, além do óbvio - acelerar o processo degenerativo social decorrente da insuficiência da educação informal -, outro chama, deveras, a atenção: as escolas, que já não cumprem, por insuficiência formal e material, hão, agora, de desempenhar o papel de "investigadores de delitos".
Não espanta... haveria mesmo de chegar o dia em que 'educar' seria considerado crime. Se Bourdieu houvesse nascido no Brasil, alinhar-se-ia a De Gaulle.
Finalmente, a respeito da orientação internacional referida no artigo retro, um provérbio chinês define bem o entendimento pátrio a este respeito: "Enquanto o sábio aponta para uma estrela, o idiota olha para o seu dedo".




terça-feira, 11 de maio de 2010

Tributo à imbecilidade


Porque imagens valem mais que palavras, ainda mais se forem acompanhadas de boa música, posto hoje um vídeo-clipe que retrata com maestria, ao som de uma música deliciosa, ótima letra, arranjos irretocáveis, cenas da mais pura imbecilidade relacional humana. Falo sério! Se tiveres um tempinho, assista-o. Vale a pena! É realmente excelente e retrata com cores convincentes aquilo contra o que venho lutando com milhares de palavras escritas aqui ao longo de meses.


Divirta-se e reflita.




(Daqui por Diante - Barão Vermelho)


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Benjamin Button e as conchas fechadas


Assistindo (pela segunda vez) o filme “O intrigante caso de Benjamin Button” (tradução livre), ao final, assim como da primeira vez, peguei-me pensativo. Impossível não ficar!
Versa sobre a estória de um personagem, interpretado por Brad Pitt, que nasce ancião, rejuvenesce com o tempo, e morre bebê. Um tanto pitoresca, mas sensível o suficiente para remeter o expectador à reflexão. Sugiro assistam, se ainda não o fizeram.
A reflexão é: qual é o sentido de todas as coisas que fazemos durante nossa vida, que por sinal, ainda que não pareça a alguns, é realmente curta?

Diversas pessoas passam por nossa vida. Algumas não se demoram. Outras se demoram um pouco, outras muito. Mas todas ‘passam’. E nós também passamos, inexoravelmente. O que importa, ao final, é perceber que jogamos fora o mínimo possível de oportunidades. E que aproveitamos o maior número possível delas. Bem, isso não parece muito profundo. Aliás, parece frase feita. De fato é. Mas, importante é nos atermos um pouco mais ao sentido de “oportunidade”. O que, de fato são elas? E mais: quais são as oportunidades que realmente importam, afinal?
Quanto mais o tempo passa, mais convicto fico de que não se trata de dinheiro, de carreira... talvez nem mesmo de viver um ‘grande amor’. Não que essas coisas não sejam importantes. São! Mas percebo cada vez mais claramente que a maior oportunidade que perdemos é aquela que, ironicamente, depende exclusivamente de nós mesmos. É a oportunidade de “viver as oportunidades". Viver no sentido de “viver intensamente”. De retirar cada gota de cada coisa que se nos apresenta na vida. E não o fazemos...
Preferimos provar pouco por medo de sofrer. Se temos oportunidade de nos envolver com alguém, apaixonarmo-nos, intensa, profundamente, reprimimos os sentimentos por receio de que um dia acabe, sem percebermos que tudo, um dia, acaba. Com isso, deixamos de suspirar, de tornar os dias melhores, de sorrir, de viver!
Se encontramos alguém pelo caminho, alguém que se nos apresenta como um potencial amigo, limitamo-nos a nos envolver superficialmente. Ao invés de nos mostrarmos por completo, de nos interessarmos por saber como aquela pessoa realmente é, o que pensa, o que tem para nos ensinar, preferimos gastar nosso tempo com comparações emulativas, com superficialidades que nada nos acrescenta a não ser, talvez, o fato de nos sentirmos (provavelmente erroneamente) mais inteligentes, mais belos ou mais importantes do que ela. Quanta bobagem... quanta superficialidade... que vida tola!
Ao invés de nos tornarmos proativos, interagirmos, ensinarmos, aprendermos, ajudarmos, motivarmos, vibrarmos com a felicidade alheia, fazemos o oposto diametral, ainda que tentemos não demonstrá-lo (nem para nós próprios!). Fecha-se em si, maldiz-se, inveja-se, critica-se, desconfia-se, acusa-se... Meu Deus! Que desperdício de vida!
Ao invés de se aprender com as diferenças, condena-se-as.
Nenhuma empatia... só antipatia travestida de indiferença ou, por vezes, de simpatia. E nada ou muito pouco se constrói de real valor na vida. Valor! Real valor! Não financeiro. Mas de intensidade. Intensidade de vida, de amor, de carinho, de afeto, de amizade, de motivação, de suspiros, de amizade, de reciprocidade...

Quanto tempo levará para que se entenda isso? Será preciso esperar pela velhice, quando já não mais se tem saúde, vigor, disposição, oportunidades, para perceber que a vida corre na direção oposta à que a maioria de nós caminha?
Eu espero que você perceba isso em tempo de poder fazer algo a respeito.

Mas não se engane: será preciso que outras pessoas também o façam, principalmente aquelas que estão ou venham a ficar mais próximas de você. Caso contrário, você será uma voz solitária em meio a uma multidão surda. E essa é uma sensação frustrante, eu lhe asseguro!
Seja como for, melhor lutar, tendo-se uma chance remota de sucesso do que simplesmente deixar que a vida se vá... morna, superficial, vã.
Eu torço por você, seja você quem for. Quem sabe eu possa, ainda, aprender muito com você. Quem sabe possamos motivarmo-nos mutuamente, rirmos juntos, ampararmos um ao outro, ajudar juntos a uma terceira pessoa... vibrar com o progresso um do outro. Confidenciarmos segredos. Crescer, viver.
Eu sei... sei que o mundo torna a todos, conchas fechadas. Conchas covardes. Conchas vaidosas... “deuzinhos” vazios. Por isso o meu diuturno lamento. Vidas desperdiçadas por vaidade, orgulho, empáfia, medo, pragmatismo... burrice!
Quiçá eu encontre algumas “conchas abertas” ao longo do caminho... Tomara você também encontre. Cuide apenas para que não deixe passar a oportunidade de identificá-las. Algumas já devem ter passado sem que você notasse.
Se quer viver uma vida melhor, comece por mudar-se a si e à sua percepção a respeito das coisas e das pessoas. Aí a concha começará a se abrir...

Boa sorte!

domingo, 2 de maio de 2010

Grandes invenções sociais desagregadoras - parte I: A Cobrança


Depois que inventaram a “cobrança” ficou fácil desonerar-se da responsabilidade pela falta de reciprocidade, não acha? É simples assim: A e B se aproximam: A age proativamente em relação a B, pagando-lhe atenção, carinho, cuidados, zelo. B, apesar de demonstrar satisfação com o fato, prossegue agindo apática e desidiosamente em relação a A. A, por sua vez, desestimula-se com o fato e tem de optar por uma de três alternativas: a) permanece agindo diligentemente, ignorando a falta de reciprocidade e assumindo os riscos demeritórios que tal escolha implica; b) suspende a atitude proativa na esperança de que B “se toque”; ou c) comunica a B que a ausência de reciprocidade acabará por desestimular-lhe a continuar a agir zelosamente.
Na primeira hipótese, A transformar-se-á, provavelmente, em alguém desimportante permanentemente, já que nem a si próprio dá valor. Quem lhe daria então?
Na segunda hipótese (a mais comum), a ruptura brusca do modelo pode surtir algum efeito positivo, mas isso dependerá do quanto B depende emocionalmente de A. Pode ser um tiro no pé, já que se trata de motivação emocional.
Na terceira, menos comum, mas, em tese, mais eficiente, dois prováveis desfechos se delineiam: B compreende racionalmente a insuficiência de seus atos em relação a A e revê sua maneira de agir. É provável, até, que B se sinta lisonjeado por notar que sua atenção é importante para alguém. O segundo desfecho é o mais corriqueiro, infelizmente: B se sente ‘cobrado’ por A e simula (ou pior: sente mesmo!) desapontamento e indignação por isso (dada a sua imaculada altivez fundada em sólido bloco de ignorância egoísta monolítica) e, evidentemente, “chuta o balde”.
Como eu disse no início, depois que inventaram a ‘cobrança’, ninguém mais se responsabilizou pela insuficiência de sua capacidade de agir com reciprocidade. É uma pena! Mas quem disse que as ‘invenções’ culturais são agregadoras?



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sabedoria embotada



Li, outro dia, frase assim: “O sábio procura a ausência de todas as dores. Não o prazer”. Não fazia referência à autoria, mas, seja de quem for a pérola, acredito que poder-se-ia comodamente trocar a palavra “sábio” por “covarde” sem perda de nexo. Aliás, ao contrário, talvez dessa maneira a frase faria algum sentido.
Essa é uma discussão antiga. Nasceu na Grécia pós-clássica, com os estoicistas e hedonistas, estes, basicamente, defendendo a busca pelo prazer; aqueles, o afastamento da dor. Atravessou séculos e Locke a retomou com certo relevo, já na idade moderna.
Muito se distorceu a respeito das idéias de Zenon, Epicuro e outros que buscavam o sentido da felicidade à luz da filosofia.
Hoje tais noções estão caricaturadas, deformadas propositalmente e poucos se apercebem do fato. Longe, bem longe do sentido original das vertentes filosóficas, associa-se atualmente ao hedonismo, alto grau de sensualismo e ao estoicismo, sentido de resignação monástica.
Mas, distorcidas ou não, ignoradas ou não, antigas contradições filosóficas continuam presentes, ainda que não percebidas como tais, em nosso cotidiano. Jamais, aliás, abandonaram nosso íntimo. Afinal, devemos evitar a dor ou buscar o prazer? O que vale mais a pena na curta vida que temos para viver?
Em análise breve constatamos que, apesar de as evidências mostrarem o contrário, parece que predomina, hoje, a tendência de se tentar evitar a dor. Sim, a liberação afetivo-sexual da juventude parece contradizer-me. Entretanto, há, nela, outra contradição que a coloca em xeque em sua essência: o prazer buscado nessa liberação tem o condão de satisfazer parcialmente, restando a necessidade do enamoramento para complementar o que se aspira: o prazer completo. Em outras palavras: transar é bom, mas não traz felicidade. Esta, só virá quando se transar com quem se ama, ou melhor, com a pessoa por quem se apaixonou. E aí é que vem a contradição: teme-se, morre-se de medo de se apaixonar, por medo de vir a sofrer posteriormente. Guarda-se, evita-se a todo custo entregar-se – não o corpo. O coração! E aí se crê que a sociedade é hedonista, contumaz perseguidora do prazer. Bobagem. Usam essa fachada para confundir a visão, fazendo-lhes parecer “descolados”, destemidos, auto-suficientes – exatamente como um “deusinho” tem de ser! Mas na verdade são todos covardes. Borram-se de medo de se apaixonarem, mesmo acreditando que somente assim serão realmente felizes (é aquela velha estória da criação cultural fictícia direcionada ao consumo e à manutenção da ordem social - vide publicações anteriores a respeito), sentirão o prazer por completo. Aí, limita-se a se envolver "somente" até certo ponto. Ou seja: evita-se a dor. A busca do prazer é mais aparente do que real.
O problema é o seguinte: o tempo é limitado. A vida é curta. E quando se percebe a besteira que fez, não há mais tempo de corrigi-la. Gastou-se a vida agindo covardemente, fugindo da possibilidade de se experimentar o prazer de fato – e, por conseguinte, a felicidade, uma vez que ambos os conceitos são, tradicionalmente, associados. Não espanta que pouco reste de brilho de esperança às pessoas de meia idade e nenhum aos idosos!
Intrépidos e destemidos “deusinhos” e “deusinhas”... acordai-vos uns aos outros enquanto é tempo...